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planeta terra festival

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A villa dos galpoes é, certo, o lugar mais legal para se fazer um festival em Sao Paulo. Imagine uma fábrica no pós-guerra, vários galpões vazios, alamedas arborizadas ligando tudo, grandes espaços, e tudo com uma cara de ruína mas, bem, há vida. Esse galpao ali serve de bar, aquele ali de banheiro, e olha, um indie stage naquele outro ali. Dá até pena que o espaço vá ser vendido para um shopping center no ano que vem, mas assim as coisas. A escolha, como a organização do evento, foi linda. Nesses termos (e em outros), é o melhor festival no Brasil hoje.

Dos shows a que assisti (e eu assisti aos melhores, ok?), coloco assim.

RANKING CORRETO DOS MELHORES SHOWS DO PTF:

1. curumin
2. animal collective
3. foals
4. spoon
5. etc.

E nao, colocar o Curumin em primeiro lugar nao tem nada a ver com nenhum impulso ufano-nacionalista, cara palida. Luciano Nakata foi mesmo o mano que fez valer a pena chegar mais cedo (mas não tão cedo, papito!). No começo do show, ele acende um incenso e coloca para queimar a frente de sua bateria, posicionada ao centro do palco e ladeada por baixo e synths, Lucas Martins e Pedro Sosa. Prenúncio acertado da vibe que trariam para o indie stage, o incenso. Luciano toca sempre de sorriso no rosto, tem a mente no mesmo lugar que o corpo e o corpo no mesmo lugar que a música.

Dos albuns do Curumin, prefiro o primeiro, mas admiro ambos pelo tropicalismo tocado com uma maturidade brincalhona do antropófago que aprendeu a extrair o melhor de cada lado. Cedês à parte, Curumin te ganha mesmo é ao vivo. Com o rosto da Billie Holiday na camisa, toca do funk ao dub e põe aí mais samba e rap, uma salada de frutas com gostinho brasil. Entre canção e outra ele fala com o público, convoca, e não que isso seja estritamente necessário a um artista, mas simpatia é aquilo que sabeis. (E não tem nada a ver com as mãozinhas pra cima do Kaiser Chiefs.) Aí ele agradece que o som esteja tão bom, “assim tudo fica mais fácil, galera” e diz obrigado ao staff técnico, pelos nomes.

Entrou esse cara, que eu peco por não saber o nome, pra cantar algumas músicas. Estava totalmente chapado. Luciano tocava e ria e falava da brisa. A sintonia entre os quatro no palco era tanta que você se sentia participando da música só de olhar pro sorriso deles. Entre todas as conexões que se pode estabelecer com um músico ao vivo, a do riso consentido talvez seja das mais poderosas. Ritmos criativos e um ecletismo que te jogava até no meio de um batidão vertiam naturais e verdadeiros, marcando um início delicioso pro (meu) festival.

_

Aí vem o grupo com o menu sonoro mais referenciado nos tentáculos musicais da atualidade, Animal Collective, que eu nem imaginava como ia ser ao vivo, mas sabia que ia ser chapa quente desde sempre. Começou morno, entretanto, problema técnico, o microfone do Panda Bear não reagia e a banda parou tudo, meio puta, público idem. Tudo ok, voltam em seguida, e ao fundo da loucura que principia começa a rolar o Bolero de Ravel.

O Animal joga o jogo da imersão. De repente saem das caixas uns rasgos que te envolvem o corpo e te jogam contra a banda, que já está em pé de fazer barulho até que a espinha faça correr os líquidos que correm quando algo especial está acontecendo. Houve quem reclamasse do som, mas próximo ao palco, onde estava eu, a coisa toda soava cristalina de modo que dava pra ouvir um tilintar no meio das trocentas camadas que rodavam ao mesmo tempo.

Tocaram na maioria as músicas do Strawberry Jam e fizeram Fireworks render uns 15, talvez 20 minutos, que passaram como um suspiro. O show foi rápido e intenso. E talvez a peça mais artística do festival, seja lá o que suas mentes sujinhas vão entender disso. Leiam esse texto aqui da Katia, que faz uma análise bacana e apaixonada do AC (justo como eu faria, mas há a fadiga).

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O cedê debute do Foals revela uma banda boa, mas que talvez fique aí. Agora, o que é aquilo ao vivo? Banda principiante com tanta capacidade de destruição é um ponto a ser considerado. Os solos geométricos e as interações entre as guitarras que os renderam a ingênua tag mathrock ficam por vezes soterrados por sete palmos de distorção pesada e bateria frenética, tudo erradamente acertado. Festa, festa, festa. Lá pelas tantas, aparece alguém e me empurra quase me tirando o equilíbrio, e olho a tempo de ver o próprio Yannis Philippakis, que corria curvado com duas baquetas à mão pelo meio da galera. Tambores caindo pra cá, microfones sendo jogados pra lá, um show que termina junto ao fim do mundo.

Spoon. Eu gosto do som dos caras, sou fã dos sons antigos, e acredito que um dos melhores cedês deste ano é deles, mas entrei sem esperar um grande show. Eles foram além do que eu esperava, fizeram rock’n’roll bonito, mas alguma coisa continuou sem dar as caras. Não sei bem o que foi. Não creio que tenha faltado entrega ou verdade na primeira apresentação em terras brasileiras. É que talvez o Spoon não faça realmente grande diferença ao vivo, por mais que isso possa soar injusto. Não há tanto mais para ser dito que aquilo que já está devidamente compactado nos discos. All alright though.

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Breeders eu escutei de longe, enquanto tirava um cochilo numa das esteiras que colocaram no gramado lá fora. Achei ok. Mallu e Sr. Vanguart, agora ex-namorados, tocaram no main stage um depois do outro, ou algo próximo disso. Offspring tocou paralelo ao Spoon, então sem chance. Jesus and Mary Chain ouvi uma música, parecia legal. Bloc Party eu não vi nada, mas falaram que eles ficaram pedindo desculpas pelo playback na mtv e eu fico grato por tê-los ignorado. No dj stage, eu queria mesmo era ver o Calvin Harris, que foi cancelado. O Kaiser Chiefs é uma piada. Disparado o show mais chato de todos. Como é que uma banda que poderia ser qualquer outra, com músicas tão iguais a qualquer coisa, pode fazer tanta gente responder tão aficionadamente às suas bobagens de palco? Mão esquerda, Êee, Mão direita, Êee, Oubrrigado, sao paolo, oubrrigado. Chato de doer. E no entanto estava lá encerrando os shows do palco principal, o vocalista usando uma cueca vermelha. Não me pergunte.

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Written by Dael

November 14, 2008 at 1:32 pm

One Response

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  1. =)
    “…passou como um suspiro!”
    (L)

    katianogueira

    November 14, 2008 at 2:22 pm


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